Poucos meses adentro do novo mandato de Donald Trump, o mundo inteiro foi pego de surpresa com as especulações sobre o aumento dramático das tarifas de importação. É o chamado “tarifaço”. Convicções ou especulações políticas colocadas de lado, essas medidas possuem enormes consequências comerciais, com forte possibilidade de impactar o ramo securitário.
O efeito cascata atingirá os custos do setor segurador, especialmente no resseguro. O Brasil ainda depende significativamente da capacidade de resseguro internacional – em 2024, por exemplo, foram contratados R$ 22,3 bilhões em resseguros até outubro, segundo o Boletim IRB+Mercado[1]. Grande parte desse montante foi negociado com resseguradoras do exterior[2], sediadas em países como Alemanha, Suíça, França e Espanha.
Tensões comerciais globais (como as provocadas pelo tarifaço) interferem diretamente na precificação das resseguradoras, que passam a incorporar esse risco geopolítico em seus cálculos. Isso pode se traduzir em contratos de resseguro mais caros ou menos vantajosos para seguradoras brasileiras, pressionando o pricing das apólices e elevando os prêmios cobrados dos segurados.
Especulações imediatas às medidas de Trump, publicadas pela InfoMoney[3], sugerem uma primeira desvalorização do real frente ao dólar. Resultando no aumento de preços numa série de produtos, que também pode impactar o mercado securitário, especialmente nos “seguros de automóvel”, dependentes de peças importadas, cujos custos são impactados pela desvalorização do real frente ao dólar e às principais moedas europeias.
Além disso, o encarecimento generalizado de bens importados – que também passa por máquinas industriais e equipamentos médicos – afeta diretamente os custos de “indenização”. Como esses itens compõem o valor segurado ou os custos de reparo e substituição em caso de sinistros, o aumento de seus preços pode elevar o custo médio da taxa de sinistralidade e impactar a rentabilidade das carteiras.
A recente a tarifa de 50% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos (Donald Trump) atingirá em cheio a produção de suco de laranja do Brasil e, inevitavelmente, o preço do seu seguro de transporte, porquanto eleva o custo final do produto, incluindo o desse seguro, que é um componente essencial da cadeia logística.
Saindo de um ano de crescimento e expansão, mesmo com o grande impacto das tragédias naturais que ocorreram no Brasil, o segmento securitário não pode deixar de estar atento a essas movimentações externas, pois embora ainda seja cedo para mensurar com precisão os efeitos dessas tarifas, não devemos ignorá-lo e confiar apenas na resiliência do mercado.
[1] Fonte: https://www.irbre.com/seguradoras-contrataram-r-223-bilhoes-em-resseguros-ate-outubro-de-2024/
[2] Fonte: https://infograficos.valor.globo.com/valor1000/rankings/as-maiores-companhias-de-resseguros/2024
[3] Fonte:
Disponível em: https://www.segs.com.br/seguros/425028-tarifaco-pode-gerar-efeitos-colaterais-no-mercado-segurador-brasileiro
Autor: Sergio Luiz Bernardelli Junior • email: sergio.bernardelli@ernestoborges.com.br